No coração de Maceió, onde a história repousa em páginas delicadas e silenciosas, a inovação começa a reescrever o futuro. A Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos, guardiã de cerca de 6 mil obras raras, vive um novo capítulo: o da transformação digital, um processo que alia tecnologia de ponta, ciência da informação e preservação do patrimônio cultural.
A digitalização do acervo não é apenas um avanço técnico, é uma estratégia essencial para proteger obras frágeis e, ao mesmo tempo, democratizar o acesso ao conhecimento. Por meio de equipamentos especializados, como scanners planetários (que capturam imagens sem danificar a encadernação) e softwares de tratamento de imagem, cada página é convertida em arquivos digitais de alta resolução.
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Esse cuidado é fundamental quando se trata de livros raros, muitos deles com papel sensível, encadernações artesanais e marcas do tempo que exigem manuseio mínimo. Com a tecnologia, o contato físico diminui e a vida útil das obras se prolonga.
Além da captura das imagens, o processo envolve etapas técnicas essenciais, como o tratamento digital, a padronização dos arquivos e a criação de metadados, informações que descrevem cada obra e facilitam sua localização em sistemas digitais.
Com isso, os documentos passam a integrar bases de dados organizadas, permitindo buscas rápidas e acesso remoto por pesquisadores, estudantes e pela sociedade.
Tecnologia
A engrenagem tecnológica por trás desse projeto funciona no Laboratório de Gestão Eletrônica de Documentos (Laged), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Inaugurado em 2024, o espaço reúne infraestrutura moderna e conhecimento acadêmico para executar um trabalho minucioso e altamente especializado.
No laboratório, estudantes e pesquisadores atuam diretamente na digitalização, aplicando técnicas como captura sem contato agressivo, correção de imagens, indexação e armazenamento seguro em repositórios digitais.
“O papel do Laged nesse processo de digitalização é imprescindível, pois sem o Laged a gente não conseguiria fazer um trabalho tão minucioso, tão delicado e de tanta inovação como é esse processo de digitalização das obras raras da Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos”, explica a coordenadora do laboratório, professora doutora Rosaline Mota.
A iniciativa representa um avanço significativo na forma como a memória é preservada. Obras que antes só podiam ser acessadas presencialmente, e sob rígidas condições, passam a estar disponíveis em ambiente digital, reduzindo o manuseio e ampliando o alcance do acervo.
“A digitalização contribui de forma muito intensa para a preservação e conservação dos documentos raros. O acesso físico envolve manuseio, retirada e movimentação das obras, o que pode acelerar sua deterioração”, destaca Rosaline Mota.
Segundo a pesquisadora, o ambiente digital surge como solução para equilibrar acesso e preservação.
“Quando você coloca esse acervo de forma digital, você permite a conservação e a preservação dessas obras, porque as pessoas vão poder acessar a partir de uma base de dados digital”, afirma.
Raridades
Entre os exemplares contemplados estão obras de autores alagoanos e raridades históricas, como a coleção Contos de Diogo de Couto, publicada em 1778. Ao serem digitalizadas, essas obras mantêm não apenas o conteúdo textual, mas também características visuais importantes, como tipografia, marcas de uso e detalhes gráficos.
A supervisora da biblioteca, Mira Dantas, reforça o impacto direto da iniciativa.
“Cada obra rara que temos aqui carrega uma história única. A digitalização permite que essas histórias cheguem mais longe, sem colocar em risco a preservação dos exemplares. É uma forma de garantir que esse acervo continue vivo e acessível”, afirma.
Neste primeiro momento, o projeto prioriza a produção local.
“Nosso foco está voltado para a digitalização das obras de autores alagoanos. São registros que ajudam a contar a nossa própria história e revelam aspectos da cultura, da literatura e da formação do Estado”, acrescenta Mira Dantas.
A secretária de Estado da Cultura e Economia Criativa, Mellina Freitas, destaca o alcance da iniciativa. “Estamos diante de um trabalho que conecta gerações. Ao digitalizar essas obras, ampliamos o acesso ao conhecimento e cuidamos de um patrimônio que pertence a todos os alagoanos. É uma ação que dialoga com educação, pesquisa e identidade cultural”, afirma.
