O Projeto Conservação Recifal (PCR), sediado em Recife (PE), desenvolve um estudo inovador para avaliar se o uso de um consórcio probiótico pode aumentar a resistência dos corais ao estresse térmico, uma das principais causas do branqueamento e da morte desses organismos.
Em fase experimental, a pesquisa é realizada com fragmentos do hidrocoral calcário Millepora alcicornis, coletados na Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, entre os litorais de Pernambuco e Alagoas. Os exemplares são mantidos em aquários sob condições controladas.
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Caso os resultados confirmem que os probióticos favorecem a resistência ou a recuperação dos corais, a técnica poderá subsidiar futuras estratégias de conservação e restauração em ambientes naturais. A expectativa é que isso possa ocorrer já no próximo verão.
A APA Costa dos Corais foi escolhida por abrigar um dos mais importantes ecossistemas recifais do Brasil, com grande relevância ecológica, econômica e social. A unidade de conservação, no entanto, está cada vez mais vulnerável ao aumento da temperatura do mar, aos episódios de branqueamento, à pressão humana e aos efeitos das mudanças climáticas.
“A escolha da APA Costa dos Corais se justifica pela presença de formações recifais representativas do Nordeste brasileiro e pela necessidade urgente de compreender e testar alternativas para reduzir os impactos do aquecimento e do branqueamento sobre os corais da região”, explica a bióloga Gislaine Vanessa de Lima, integrante da equipe de sete pesquisadores responsáveis pelo estudo.
A preocupação dos cientistas aumenta diante da previsão de ocorrência do fenômeno El Niño ainda este ano, o que pode contribuir para o aquecimento dos oceanos e a intensificação de eventos climáticos extremos.
“Nesse contexto, o monitoramento e a pesquisa científica são fundamentais. O experimento com probióticos busca justamente entender se é possível aumentar a resistência dos corais ao estresse térmico, oferecendo uma possível ferramenta futura para ações de conservação e restauração recifal”, afirma a pesquisadora, em entrevista ao Alagoas Notícia Boa (ALNB).
Como funciona a pesquisa
Segundo Gislaine Vanessa, o diferencial do estudo está na aplicação experimental de um consórcio probiótico em uma espécie recifal do Nordeste brasileiro, em um desenho controlado que combina aquecimento e tratamento.
A pesquisa compara quatro cenários: corais sem aquecimento e sem probiótico; corais tratados apenas com probiótico; corais submetidos ao aquecimento; e corais submetidos ao aquecimento com aplicação de probiótico.
“A partir daí será possível observar diferenças na resposta dos fragmentos ao aumento gradual da temperatura, ao branqueamento e ao processo de recuperação”, explica.

Os probióticos são aplicados diretamente nos aquários que recebem o tratamento. O consórcio utilizado reúne cinco isolados bacterianos previamente caracterizados por atributos funcionais de interesse, como atividade de catalase, urease, antagonismo e presença de genes associados a funções relevantes para a microbiota dos corais.
“A ideia é favorecer microrganismos benéficos que possam contribuir para o equilíbrio do coral, ajudando-o a lidar melhor com condições de estresse, como o aumento da temperatura. O estudo busca avaliar não apenas o branqueamento, mas também a possível recuperação dos fragmentos após a redução gradual da temperatura”, detalha.
Outro diferencial apontado pela pesquisadora é o uso de bactérias previamente caracterizadas funcionalmente, permitindo avaliar de forma mais precisa o potencial desses microrganismos para aumentar a resistência dos corais ao estresse térmico.
Resultados
Até o momento, o estudo ainda não apresenta resultados conclusivos. Os organismos passarão por análises microbiológicas para verificar a eficácia dos probióticos.
“Antes de qualquer aplicação em recifes naturais, é necessário comprovar a eficácia e a segurança da técnica em condições controladas. Caso os dados indiquem benefícios para a resistência ou recuperação dos corais, a metodologia poderá subsidiar estratégias de conservação e restauração em ambientes naturais. A expectativa é que isso possa ser feito já no próximo verão”, revela a cientista.

Ela lembra que pesquisas semelhantes já foram desenvolvidas na Arábia Saudita e apresentaram resultados promissores para a resiliência de corais expostos aos probióticos.
Alerta e esperança
Gislaine Vanessa alerta que, sem medidas efetivas, os recifes da costa nordestina podem sofrer perdas significativas de cobertura coralínea, redução da biodiversidade, aumento da frequência de eventos de branqueamento, mortalidade de organismos recifais e comprometimento de serviços ecossistêmicos essenciais, como pesca, turismo, proteção costeira e manutenção da vida marinha.
“Isso já vem acontecendo nos últimos eventos de branqueamento em massa registrados na APA Costa dos Corais, em 2020 e 2023. Para 2026, é esperado um novo evento, e será importante estarmos preparados para auxiliar os corais a enfrentarem esse desafio da melhor maneira possível”, afirma.
Para a pesquisadora, estudos como esse são importantes porque buscam novas ferramentas para aumentar a resistência dos corais e apoiar estratégias de manejo diante das mudanças climáticas.
“Os recifes de coral estão sob ameaça, mas ainda existem caminhos possíveis para protegê-los. A pesquisa mostra que ciência, conservação e inovação podem caminhar juntas na busca por soluções. Também reforça que a proteção dos recifes depende não apenas dos pesquisadores, mas de políticas públicas, educação ambiental, redução dos impactos humanos e participação da sociedade”, conclui.
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