O Carnaval não é apenas uma festa. É herança, é sangue, é memória que pulsa no compasso da bateria.
Na infância, em uma casa simples e cheia de amor, aprendi cedo que alegria se constrói nos detalhes. Eliza, a moça de olhos azuis que veio do interior do Espírito Santo, foi mais que ajudante: tornou-se segunda mãe. Mas foi também ela quem se deixou seduzir pelo som que fazia tremer os paralelepípedos da Rua Graciano Neves. O batuque da Batucada Chapéu do Lado arrebatou seu coração — e o meu também.
No Carnaval de 1954, eu, ainda criança, vi a magia nascer diante dos meus olhos. As baianas rodavam suas saias brancas como flores em movimento, os homens de terno e chapéu inclinados com elegância, e o samba ecoava como um hino de pertencimento: “Quem é, quem é que vem chegando com tanta animação? Quem é? Quem é? Chapéu do Lado do meu coração.” Essa música vibra em mim até hoje, como se fosse batida eterna.
Pouco depois, em 1955, a Batucada se uniu com outra e nasceu a primeira Escola de Samba de Vitória: Unidos da Piedade. Foi como ver uma estrela surgir no céu da cidade. A bateria forte fazia os morros da Fonte Grande e da Piedade tremerem em ensaios que eram pura celebração.
Mesmo quando me mudei para o Rio de Janeiro, no início dos anos 70, o Carnaval continuou sendo meu norte. No BNH, meus colegas logo descobriram minha paixão e juntos íamos aos ensaios das grandes escolas: Salgueiro, Vila Isabel, Mocidade, União da Ilha… Cada sábado era mais que rotina, era destino escrito em tamborim.
Agora, moro em Brasília e no último fim de semana, assistindo ao desfile das Escolas de Samba de Vitória, percebi a evolução: hoje luxuosas, mas sem perder o samba no pé, o entusiasmo e a alma vibrante. Vi o Sambão do Povo explodir em delírio, cada vez que era anunciada a próxima escola – a imagem perfeita do coração coletivo da cidade batendo junto.
Parabenizo a comunidade dos Morros da Fonte Grande e da Piedade, e a Escola de Samba Unidos da Piedade, pelo 2º lugar no Carnaval de 2026. Mereciam Nota 10 em todos os quesitos. A bateria forte tocou fundo no coração de todos — inclusive no meu, que vibrou como criança outra vez.
E volto ao início: minha vida, permeada de amor, é fruto de um ato de amor na noite de uma terça-feira, quase madrugada da Quarta-feira de Cinzas. Talvez por isso eu carregue no sangue essa magia.
Como não amar o Carnaval, se cada batida de surdo é o próprio coração que insiste em viver, cantar e brilhar?
