A SAVE Brasil (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil) confirmou ao portal Alagoas Notícia Boa (ALNB) que quatro filhotes da espécie choquinha-de-alagoas (Myrmotherula snowi), uma das aves mais raras e ameaçadas do planeta, foram registrados na Mata Atlântica, na Estação Ecológica (ESEC) de Murici, em Alagoas, durante a última temporada reprodutiva.
De acordo com a SAVE Brasil, o dado indica que ao menos quatro novos indivíduos foram incorporados recentemente à população da espécie endêmica do Brasil, que hoje só existe na ESEC de Murici, em Alagoas.
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A descoberta foi feita pela equipe de campo da SAVE Brasil, liderada pelo ornitólogo Arthur Barbosa de Andrade, durante o monitoramento realizado entre dezembro e janeiro. Na área, foram identificados quatro casais pareados da espécie, um número que traz esperança diante da situação crítica da choquinha-de-alagoas.
Dois desses casais foram observados acompanhados, cada um, por dois filhotes. Considerada criticamente em perigo de extinção, a choquinha-de-alagoas é um dos símbolos mais extremos da perda histórica da Mata Atlântica nos estados de Alagoas e Pernambuco.
Após décadas de desmatamento e conversão da vegetação nativa em pastagens e cana-de-açúcar, a espécie desapareceu de todos os outros fragmentos florestais remanescentes e hoje sobrevive exclusivamente na ESEC de Murici, uma unidade de conservação federal.
Outras espécies de aves que compartilharam o mesmo habitat, infelizmente, já foram globalmente extintas nas últimas décadas, incluindo a limpa-folha-do-nordeste (Philydor novaesi) e o trepador-do-nordeste (Cichlocolaptes mazarbarnetti).
Acompanhamento
Além do acompanhamento sistemático da população de choquinhas, que agora contabiliza 12 indivíduos na natureza, a SAVE Brasil vem adotando ações diretas de manejo para reduzir a mortalidade reprodutiva, uma das principais ameaças para a sobrevivência da espécie.
Entre as medidas está a remoção de predadores naturais dos ovos, principalmente marsupiais, do entorno imediato dos territórios reprodutivos. Os animais são translocados para outras áreas da mata onde não há ocorrência da choquinha.

A SAVE Brasil destaca que o manejo de remoção de predadores é realizado de forma segura para esses animais e com anuência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão gestor da ESEC de Murici.
“A predação de ovos e filhotes é uma das maiores ameaças à reprodução da espécie. Diversos estudos pelo mundo já apontaram que em áreas com paisagem fragmentada as taxas de sucesso reprodutivo da maioria das espécies de aves diminuíram. Como são populações muito pequenas, cada ninho, ovo ou filhote perdido tem um peso enorme”, explica Edson Ribeiro Luiz, coordenador de projetos na SAVE Brasil.
Monitoramento
O monitoramento contínuo permite identificar esses riscos e agir de forma pontual para aumentar as chances de sucesso reprodutivo. Altamente sensível à fragmentação florestal, a choquinha-de-alagoas depende de ambientes bem preservados e de um acompanhamento técnico constante.
O trabalho realizado em Murici envolve anos de pesquisa de campo, monitoramento populacional, ações de manejo e articulação com órgãos ambientais da região. Vale frisar que a ESEC de Murici abriga além da choquinha-de-alagoas, ao menos outras doze espécies de aves globalmente ameaçadas, incluindo o zidedê-do-nordeste (Terenura sicki) e cara-pintada (Phylloscartes ceciliae).

Embora o nascimento dos filhotes não represente uma recuperação consolidada da espécie, o registro é considerado um sinal importante e relevante de esperança em um cenário de alto risco de extinção.
Em populações tão reduzidas, a entrada de novos indivíduos pode ser decisiva para a manutenção da espécie a curto e médio prazo.
O trabalho da SAVE Brasil na ESEC Murici recebe apoio logístico do ICMBio, e apoio financeiro da American Bird Conservancy, BirdLife International, Aage V. Jensen Charity Foundation e do doador Bruce Peterjohn
Sobre a SAVE Brasil
A SAVE Brasil é uma organização não governamental dedicada à conservação das aves e seus habitats. Fundada em 2004, desenvolve projetos de pesquisa, educação ambiental e políticas públicas em diferentes regiões do país.
A SAVE Brasil é afiliada à BirdLife International, a maior rede de organizações de conservação do mundo.
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