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Alunos transformam descarte de sururu em barreira contra a estiagem no sertão alagoano » Alagoas Notícia Boa

Alunos transformam descarte de sururu em barreira contra a estiagem no sertão alagoano » Alagoas Notícia Boa

Mata Grande e a Lagoa Mundaú estão separadas por quase 250 quilômetros, mas foi justamente a ponte entre essas duas realidades que deu vida ao AgroSururu. De um lado, toneladas de cascas de sururu descartadas diariamente às margens do Vergel do Lago, em Maceió. Do outro, a estiagem rigorosa que castiga o solo da Caatinga e desafia a agricultura familiar sertaneja.

Olhando para esses dois contrastes, quatro estudantes da Escola Estadual Demócrito Gracindo, em Mata Grande, encontraram uma resposta sustentável: desenvolveram um hidrogel ecológico e 100% biodegradável que retém água na terra e reduz a acidez do solo.

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A inovação levou a equipe Araújo Jorge — formada por Madson Nunes (15 anos), Débora Lemos (15), Julya Fagundes (15) e Anna Clara Japiassú (16) — a conquistar uma vaga na etapa nacional do Desafio Liga Jovem, promovido pelo Sebrae. Entre os dias 1º e 4 de dezembro, o quarteto estará em Brasília defendendo o projeto diante de avaliadores de todo o Brasil.

O encontro de duas pontas

A proposta nasceu quando o grupo decidiu encarar um problema socioambiental autêntico para a competição. A ideia inicial de Débora mirava a poluição gerada pelas carcaças de marisco na capital, mas o grupo sentiu falta de incluir a própria vivência do Semiárido.

“Foi um processo de conectar duas pontas de Alagoas através da sustentabilidade. Enquanto em Maceió as cascas acumulavam-se como resíduo, aqui no Sertão enfrentamos a escassez de água e a perda de nutrientes da terra. Perceber que o que era descartado na capital guardava propriedades ricas em carbonato de cálcio foi a chave”, explica Débora.

A receita alia a mucilagem da palma forrageira — planta resistente e abundante no sertão — ao pó triturado das conchas de sururu. Na prática, a mistura atua como um corretivo natural de solo e uma esponja biológica que retém a umidade e a libera aos poucos para as raízes, dispensando polímeros sintéticos.

Para Madson Nunes, manter a Caatinga no centro do projeto era inegociável. “Quando a gente exclui um problema que está ao nosso redor, acaba sendo um pouco egoísta. Decidimos unir tudo porque o que é lixo para alguns vira riqueza para a gente”, reflete o estudante.

Ciência explicada na roça

Levar a fórmula do laboratório escolar para o entendimento da comunidade exigiu simplificar a linguagem técnica. O teste definitivo de clareza veio quando Madson precisou explicar a novidade para a própria avó, agricultora de rotina pesada no campo.

“Eu disse a ela que pegamos a palma — que ela corta todo dia para o gado e os porcos — e misturamos com o pó da casca do sururu. Vira uma pasta que a gente enterra na raiz da planta e rega. Ela segura a água como uma esponja e, quando a terra seca, solta a umidade de volta. É meio que um regador natural enterrado no chão”, conta o jovem.

O caminho até a consistência ideal, contudo, acumulou dezenas de testes de campo. Julya Fagundes acompanhou de perto as tentativas de secagem da palma ao sol — se passasse do tempo, fermentava; se faltasse sol, não dava ponto de trituração. No chão da roça, a mistura ora endurecia rápido demais, ora escorria antes de fixar umidade. “O maior desafio foi persistir. No fim, ajustamos o tempo de sol, as medidas exatas e deu tudo certo”, lembra Julya.

Wi-Fi na rua e comemoração com pastel

A trajetória até a semifinal nacional em Brasília também teve seus episódios de improviso. Na apresentação virtual da etapa estadual, a conexão de internet da escola caiu às 22h30, bem no momento em que a banca avaliava o trabalho. Desesperados, os quatro correram pelas ruas de Mata Grande tentando captar sinal pelo celular.

O susto só passou semanas depois, quando o resultado oficial saiu. “Estávamos comendo pastel na rua quando abrimos a lista e vimos o nome da equipe no topo”, relembra Anna Clara, de 16 anos.

O projeto transformou os horizontes dos quatro jovens sertanejos. Anna Clara, que sonha em cursar Medicina, foi selecionada pelo programa estadual “Daqui pra o Mundo” e embarcou para um mês de intercâmbio na Inglaterra — retornando a tempo de embarcar com o time para a capital federal. Julya mira o Direito, Madson se divide entre o Jornalismo e o ativismo socioambiental, e Débora pretende seguir na área da Saúde.

Apoio que faz a diferença

A criação do AgroSururu contou com a orientação próxima da professora de Sociologia e Projeto de Vida Thaís Souza. Presente em cada etapa desde abril, a educadora percorreu feiras livres para buscar conchas de marisco, auxiliou na articulação com agricultores locais e deu suporte logístico para que a pesquisa saísse do papel.

Antes de desembarcar em Brasília, o hidrogel passou pela vitrine da Sinpete, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Agora, os jovens de Mata Grande preparam as malas para demonstrar, no cenário nacional, que a criatividade da escola pública alagoana sabe transformar resíduo urbano em vida para o semiárido.

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Notícia Boa – Alagoas

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