Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

a promessa que mudou o destino de uma voz alagoana » Alagoas Notícia Boa

a promessa que mudou o destino de uma voz alagoana » Alagoas Notícia Boa

Manhã cinza do dia 1º de maio de 2017. Chovia intensamente na BR-104, no trecho entre Murici e Branquinha, Zona da Mata alagoana. Sem drenagem, a água se acumula sobre o asfalto e faz a caminhonete aquaplanar, rodopiar e sair da pista. O bólido desgovernado entra em zigue-zague, escapa da colisão com outros veículos e só repousa ao se chocar violentamente com o robusto tronco de uma árvore, à margem da rodovia.

No interior do veículo estavam quatro ocupantes, entre eles uma cantora alagoana de muito sucesso: Rosiete Ferreira dos Santos, a Rose D’Paula, à época com 51 anos de idade. Com o impacto, ela ficou presa à caminhonete, de cabeça para baixo, com ferimentos graves.

PUBLICIDADE



Após ser retirada, foi colocada na pista e coberta com uma lona para protegê-la da chuva. A cena teria provocado a informação equivocada de que ela havia morrido.

“A notícia era essa: ‘A cantora Rose D’Paula acabou de falecer’. Tem gente até hoje que pensa que eu morri”, revela a artista quase dez anos depois do grave acidente, que significou um ponto de inflexão em sua vida e uma mudança de rota nos rumos artístico e espiritual.

Nesta reportagem especial, Rose relembra ao Alagoas Notícia Boa (ALNB) o dia em que fez uma promessa para sobreviver, a longa recuperação e a decisão de trocar uma carreira de décadas na música popular por uma atuação dedicada ao louvor e à evangelização.

A carreira 

Com sete discos gravados, um deles dedicado exclusivamente à música gospel, Rose D’Paula animou salões e encantou plateias com interpretações de clássicos da música romântica, sertaneja e boleros.

“Eu não queria ser estrela. Os meus shows eram junto com o meu público. Quem já foi sabia disso”, recorda Rose.

Mas mesmo quando cantava a música secular — também chamada de música profana ou popular — ela já incluía em seu repertório canções que falavam de Jesus e da espiritualidade.

Um exemplo disso é “Oração de um Jovem Triste”, composta por Alberto Luiz (Alberto Luiz Farah). A canção ficou muito conhecida na voz do cantor Antônio Marcos, que a gravou em 1972. A música foi interpretada por Rose na segunda faixa do seu primeiro CD.

“Eu não acho profanas as músicas, porque quando se fala de amor, quando é uma música gostosa, é uma coisa de amor, e Deus não condena”, defende.

A mudança que viria depois, portanto, não nasceu de uma rejeição ao que havia cantado durante décadas. Rose interpreta a própria história de outra maneira: acredita que recebeu um chamado específico para usar a voz com outra finalidade.

O acidente

A cantora recorda que, no dia do acidente, ela e a amiga estavam no banco traseiro do carro e não usavam cinto de segurança. Os dois homens — o marido dela e o da amiga — estavam com cinto. O grupo voltava de Gravatá (PE), após passar o fim de semana na cidade.

Quando percebeu que o veículo estava desgovernado, Rose diz ter feito uma promessa: “Deus, me salva. Se o Senhor me salvar, eu vou cantar só para o Senhor”.

Veículo saiu da pista e bateu contra uma árvore, à margem da BR-104 (crédito: reprodução)

A amiga que estava no banco traseiro com Rose morreu no local, após sofrer uma lesão no pescoço. O marido da vítima sobreviveu inicialmente, mas morreu cerca de um mês depois.

Rose associa a piora do estado dele ao sofrimento provocado pela perda da companheira, com quem havia compartilhado décadas de vida. O então marido de Rose, que também era empresário dela, sofreu ferimentos menos graves, segundo o relato.

Politraumatismos

Rose sofreu politraumatismos, com fratura no úmero, lesões na coluna e nos joelhos, comprometimento pulmonar e ferimentos provocados pelo impacto e pelos vidros do veículo. Socorrida inicialmente para o Hospital Geral do Estado (HGE), permaneceu três dias internada e passou por uma cirurgia no braço, com a colocação de uma placa e oito parafusos para estabilizar o úmero.

Após a alta, porém, as fortes dores e a dificuldade para respirar continuaram. Rose voltou a procurar atendimento e passou por sete procedimentos nos pulmões. Os médicos também chegaram a considerar uma cirurgia na coluna, mas, após tratamento intensivo e um período de imobilização, houve melhora suficiente para que o procedimento não fosse necessário.

A voz reaparece no hospital

Foi durante a recuperação que a promessa feita segundos antes da colisão voltou a ocupar o centro da vida de Rose. O corpo ainda carregava as marcas do acidente e das sucessivas intervenções. Depois de tantos procedimentos nos pulmões, cantar parecia uma possibilidade distante para alguém que havia feito justamente da voz o seu instrumento de trabalho.

Rose conta que estava internada quando recebeu a visita de um pastor. Ele fez um pedido que, diante das condições em que ela se encontrava, parecia improvável: queria ouvi-la cantar “Escudo”, louvor do grupo Voz da Verdade.

“Eu disse: ‘Eu não consigo’. Ele disse: ‘Você consegue, porque Deus está mandando’”, recorda. Rose tentou. E a voz saiu.

“Quando eu abri a boca, não era eu, não. Cantei todinha a música e com um vozeirão que eu nem tinha no palco antes”, conta.

Para a cantora, aquele momento teve um significado que ultrapassava a recuperação física. Era a confirmação da promessa feita dentro da caminhonete desgovernada, quando acreditava que morreria. Se havia pedido para viver e prometido cantar para Deus caso sobrevivesse, agora entendia que chegara a hora de cumprir o voto.

A decisão se consolidou ainda no hospital. Rose lembra que amigas chegaram a visitá-la falando dos próximos shows e da expectativa de vê-la novamente nos palcos. Dois pastores que estavam no local, porém, ouviram a conversa e lembraram que ela havia feito uma promessa.

“Ela fez um voto. E voto não se quebra”, recorda Rose sobre o que ouviu naquele momento.

Uma decisão com consequências

Cumprir a promessa significaria abrir mão do formato de carreira que Rose havia construído durante décadas. A escolha também atravessou sua vida pessoal.

O marido, que atuava como empresário e permaneceu ao lado dela durante o período de hospitalização, não concordou com a decisão de deixar o antigo repertório. Para ele, segundo Rose, não havia nada de errado em continuar cantando as músicas que haviam acompanhado sua trajetória.

Rose sofreu politraumatismos, com fratura no úmero, lesões na coluna e nos joelhos, comprometimento pulmonar e ferimentos provocados pelo impacto e pelos vidros do veículo

Rose também não dizia que havia. O ponto, para ela, era outro: havia feito uma promessa. “O voto foi entre eu e Ele, e ninguém tira isso de mim”, afirma.

As diferenças em torno da decisão acabaram contribuindo para o rompimento, confessa. Rose conta que ouviu do companheiro que cada um deveria seguir o próprio caminho. Ela escolheu manter a promessa feita na estrada.

“Eu sei que não era errado eu voltar a cantar. Mas acontece que eu fiz um voto ali. Promessa é para ser cumprida”, explica.

Um chamado que vinha de antes

O acidente consolidou a mudança, mas Rose acredita que os sinais haviam aparecido antes daquele 1º de maio.

Ela recorda uma apresentação no Iate Clube Pajuçara, em um evento para casais. Na ocasião, ainda interpretava normalmente o repertório popular quando um homem se aproximou no palco e falou ao seu ouvido.

“Você não vai continuar cantando isso não, porque Ele não lhe chamou para isso”, teria dito o desconhecido. Rose não interrompeu a carreira naquele momento. “Eu não quis ouvir. Aí continuei. Aí veio o acidente”, conta.

Vista em retrospectiva, a frase ganhou outro significado. Para Rose, o episódio passou a integrar uma sequência de acontecimentos que culminaria na promessa feita dentro do carro e na experiência vivida durante a recuperação.

Para além das paredes da igreja

Desde então, Rose passou a direcionar sua voz ao louvor. Integrante da Igreja do Evangelho Quadrangular, ela faz questão, entretanto, de não limitar sua atuação aos cultos e templos.

“Eu vivo mais no lado de fora do que dentro da minha igreja”, diz.

A frase ajuda a explicar a maneira como Rose compreende hoje sua missão. Ela canta em igrejas, mas também aceita convites para comunidades, ruas, encontros e ambientes onde boa parte das pessoas não participa de uma congregação.

“Eu vou cantar na igreja pra quem? Já está todo mundo lá”, provoca.

Na concepção da cantora, evangelizar através da música significa justamente chegar a quem está distante desses espaços. Rose conta que já entrou em uma comunidade afetada pelo tráfico no Benedito Bentes para cantar e conversar com moradores.

“Eles choravam porque eu fui até eles e abracei. Eu fui até eles e dei uma palavra”, relata.

É nesses encontros que ela diz encontrar hoje o sentido do palco. O espetáculo deu lugar à missão que acredita ter recebido, embora a artista continue presente: a mesma voz, a experiência acumulada e a facilidade de se aproximar do público permanecem como ferramentas.

Onde as pessoas estão

Essa disposição de cantar fora dos ambientes religiosos também coloca Rose diante de situações semelhantes às que fizeram parte de sua antiga vida artística.

Recentemente, ela foi convidada para participar de uma festa de Dia dos Pais. Quando chegou, encontrou o espaço lotado, com pessoas bebendo e celebrando. A princípio, conta, sentiu receio.

“Eu parei assim: ‘Meu Deus, eu vou enfrentar essa situação?’”

“Eu vou cantar na igreja pra quem? Já está todo mundo lá”, brinca Rose

Rose diz que a resposta que encontrou foi coerente com a missão que escolheu para si: se o propósito era levar uma mensagem através da música, era justamente ali que deveria estar.

Na apresentação, optou por cantar uma música do cantos gospel Marcos Antônio dedicada aos pais (Pai). A reação, segundo ela, foi imediata. “Daqui a pouco estava todo mundo chorando”.

Para Rose, episódios assim mostram que sua mudança não significou se afastar das pessoas que acompanhavam a antiga carreira. O que mudou foi a mensagem que decidiu levar até elas.

A música que ficou para trás não virou inimiga

Quase uma década depois do acidente, Rose não renega os 40 anos vividos nos palcos nem condena os artistas que continuam interpretando música popular. Também não considera que todos devam fazer a mesma escolha que ela fez.

“Tem aqueles escolhidos que Ele diz: ‘Eu quero que faça’. Talvez, não sei por que, mas Ele escolhe”, afirma.

A cantora admite, inclusive, que sua antiga rotina tinha excessos. Um deles era o consumo de álcool durante as apresentações. Rose conta que chegava a beber grandes quantidades de uísque no palco e que, embora diga que o público não a visse embriagada, hoje observa aquele comportamento de outra perspectiva.

“Quanto mais eu bebia, mais eu sentia vontade de cantar”, lembra.

Ao olhar para esse período, Rose admite a possibilidade de que o chamado também tenha representado uma oportunidade para mudar hábitos e reorganizar a própria vida. Mas não transforma a experiência pessoal em regra para os outros.

A escolha pela paz

A mudança de repertório não eliminou as dificuldades. Rose diz ter vivido decepções tanto na música popular quanto no meio gospel. Uma das experiências ocorreu em Recife, onde chegou a lançar um trabalho religioso, mas decidiu se afastar depois de se decepcionar com situações que, segundo ela, não combinavam com a maneira como pretendia seguir sua caminhada.

O que buscou preservar, então, foi a autonomia sobre a própria fé e sobre a forma de usar sua voz. Hoje, quando olha para a cantora que atravessou décadas de noites, salões, festas e palcos, Rose não demonstra arrependimento. Prefere entender cada período como parte de uma história que a trouxe até aqui.

“Eu vou reclamar do quê? Deus me deixou 40 anos cantando, brincando, fazendo o que eu queria”, diz.

Perguntada sobre quem é a Rose D’Paula que surgiu depois daquele 1º de maio de 2017, responde sem rodeios: “Feliz. Hoje eu sou uma pessoa muito centrada”. E completa: “Eu quis optar pela minha paz. Então hoje eu tenho essa paz. Eu fico feliz quando eu atinjo o que eu quero, que a minha proposta é levar o Evangelho às pessoas”.

Dez anos depois

Em 1º de maio de 2027, serão completados dez anos do acidente. Uma década separará a mulher que, dentro de uma caminhonete desgovernada, acreditou que morreria e pediu a Deus mais uma oportunidade daquela que hoje percorre igrejas, comunidades e outros espaços levando louvores.

Durante a entrevista ao ALNB, surgiu a ideia de marcar a data com um show dedicado aos dez anos dessa nova fase. Por enquanto, trata-se de um desejo.

Rose: “Eu vou reclamar do quê? Deus me deixou 40 anos cantando, brincando, fazendo o que eu queria” (créditos: arquivo pessoal)

A efeméride, contudo, já carrega significado próprio para Rose. O dia 1º de maio deixou de representar apenas a memória de uma tragédia que matou amigos, provocou graves ferimentos e exigiu uma longa recuperação. Tornou-se também o marco a partir do qual ela passou a contar uma segunda parte da própria história.

Na estrada entre Murici e Branquinha, em meio à chuva, ela fez uma promessa porque queria continuar viva. Quase dez anos depois, é cantando que Rose acredita continuar cumprindo a parte que lhe coube naquele acordo.

PUBLICIDADE





Notícia Boa – Alagoas

Leia Também

Dinheiro e oportunidades! Vem aí uma semana de sorte para 3 signos
"Menopausa não é obstáculo": Mulher argentina dá à luz aos 62 anos
5 hábitos podem reduzir o estresse
Botão de ligar do celular esconde funções úteis; conheça cinco
Ministros avaliam que Fux expôs colegas a ataques e sanções
ChatGPT Image 16 de ago

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *