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como o teatro transforma a vida de jovens no sertão de Alagoas » Alagoas Notícia Boa

como o teatro transforma a vida de jovens no sertão de Alagoas » Alagoas Notícia Boa

Em uma sala de aula, um adolescente segura algumas folhas de papel para fazer uma apresentação escolar e é surpreendido por um tremor e nervosismo fora do normal. Uma cena relativamente comum entre os jovens chamou a atenção do professor da rede pública, Gilberto Caiano, que viu nesta cena a possibilidade de acolher e ajudar os alunos a enfrentarem a timidez.

Esse gesto simples de acolhimento resume o espírito da Cia da Mata Grupo de Teatro. Criado em 2022 no município de Cacimbinhas, no sertão de Alagoas, o projeto nasceu com a missão de incentivar a leitura, estimular a criatividade e diminuir a timidez. Mas, na prática, ele tem feito algo ainda mais profundo: ensinando os jovens a levantar a cabeça e superar os desafios.

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“O teatro faz eles olharem para o horizonte, em vez de olharem para o pé”, define o professor Gilberto Caiano, idealizador do projeto. “Muitos chegam em sala de aula olhando apenas do caderno para o chão. O teatro mostra que existe um ponto cego acima, que eles podem ir além”.

Arte que cura e conscientiza

Atualmente composto por 15 integrantes, entre homens e mulheres, o grupo não se limita a decorar textos. Os próprios jovens atuam na criação dos cenários, na confecção dos figurinos, na montagem técnica e na organização dos ensaios. É um processo coletivo de emancipação e responsabilidade.

A demanda pelo impacto social do grupo é tão grande que a agenda não para. O diretor brinca que eles já foram “quase intimados” pelas redes socioassistenciais do município para o próximo desafio: o mês de agosto. O grupo já está em processo de ensaio para uma nova peça focada na conscientização e no combate à violência contra a mulher.

“A gente trabalha saindo de um tema e entrando no outro, porque o teatro é uma ferramenta viva de cidadania”, explica Gilberto Caiano.

Uma das vidas transformadas por esse propósito é a de Kelyane Santos, hoje integrante ativa da Cia da Mata. Seu primeiro contato com a iniciativa ocorreu ainda na escola, durante as visitas do projeto Literart na Escola Estadual Muniz Falcão. O encanto imediato pela atuação a levou a se matricular no curso oferecido por Gilberto Caiano, dando início a uma jornada de autodescoberta e superação que moldou sua relação com o mundo ao seu redor.

Para ela, subir ao palco foi o remédio exato contra as amarras da timidez. “O teatro foi a ferramenta principal para eu perder o medo de falar em público, aprender a trabalhar em equipe e me expressar melhor”, conta a jovem. Além do desenvolvimento pessoal, a experiência prática no grupo expandiu sua visão sobre o papel da arte na sociedade, despertando a consciência de que o palco também é um espaço de responsabilidade social para debater temas urgentes e conscientizar o município.

Mesmo com o frio na barriga que antecede cada estreia, o sentimento que prevalece é o de gratidão pelo aprendizado coletivo proporcionado pelas peças, projetos e pela mentoria do diretor. Hoje, segura de sua própria voz, Kelyane compartilha do mesmo desejo de Gilberto Caiano: ver a Cia da Mata crescer cada vez mais. 

“Estamos sempre em busca de novos integrantes para que outras pessoas também possam perder o medo, aprender e desenvolver essa habilidade tão essencial que é a de se comunicar”, projeta.

Das ruas do sertão aos palcos da imaginação

A trajetória foi construída passo a passo. Sem um espaço físico adequado no início de 2022, as primeiras oficinas e ensaios ocuparam o salão paroquial de Cacimbinhas. A primeira turma reuniu cerca de 30 alunos.

O primeiro grande divisor de águas veio com a peça “Choam à Cacimbinhas”. O espetáculo resgatou a história e as tradições locais, tirando dos livros e da internet os personagens que fundaram a identidade do município. O sucesso foi tamanho que o grupo recebeu o convite da prefeitura para se apresentar nas comemorações da Emancipação Política da cidade, no dia 19 de setembro.

Lá, os jovens enfrentaram o desafio de adaptar o espetáculo, feito para o palco, para o formato de avenida. O reconhecimento do público consolidou a Cia da Mata como patrimônio cultural recente da cidade.

De lá para cá, o repertório se expandiu. Para os adolescentes, o grupo trouxe “Delírio”, texto de um autor baiano parceiro do projeto. Para o público infantil, peças como “Ei, Você Viu Luisinho?” e “O Tubarão e a Baleia Azul” viajam pelas escolas municipais funcionando como poderosas iscas para a formação de novos leitores.

Momentos além do palco

Para além dos aplausos e do reconhecimento institucional, o verdadeiro termômetro do projeto acontece longe dos holofotes. Gilberto conta que os momentos mais emocionantes da Cia da Mata ocorrem quando o grupo se reúne informalmente para comer pizza e conversar sobre a vida.

É nesses encontros que os próprios jovens verbalizam suas transformações. Relatos de quem convivia com a timidez extrema, o isolamento ou a falta de perspectivas, e que hoje descobre na arte uma voz e um lugar no mundo. “Quando eles começam a falar de como eram antes e de como estão hoje após o teatro, é de arrepiar”, emociona-se o diretor.

Notícia Boa – Alagoas

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