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Coragem não é o que falta. O que falta é suporte.

Thainá Caroline dos Reis

Por Thainá Caroline dos Reis*

Desde que decidi denunciar o racismo e os assédios que vivi no ambiente de trabalho, uma frase passou a fazer parte da minha rotina.
“Você é muito corajosa.”
Foram mulheres. Foram homens. Pessoas que nunca imaginei que acompanhavam minha história.
Sempre agradeci esse carinho. Mas, hoje, preciso dizer uma coisa.
A coragem nunca foi só minha.
Ela existe dentro de cada trabalhador e de cada trabalhadora que sofre uma injustiça.
O problema é que coragem, sozinha, não basta.
O que muitas vezes nos falta é suporte.
Suporte emocional.
Suporte jurídico.
Suporte familiar.
E, principalmente, suporte financeiro.
Muita gente pode se perguntar:

“Mas por que o suporte financeiro é tão importante?”
Porque eu vivi isso na pele.
Quando começamos a adoecer por causa do ambiente de trabalho, chega um momento em que não conseguimos mais permanecer ali. Precisamos de tratamento, de médicos, psicólogos, psiquiatras e, muitas vezes, do afastamento do trabalho.
É nesse momento que nossa vida muda completamente.
Passamos a depender do INSS.
E quem já passou por isso sabe como esse caminho pode ser cruel. A perícia demora. A análise demora. O pagamento, quando acontece, demora ainda mais.
Mas as contas não esperam.
O aluguel não espera.
A água não espera.
A luz não espera.
O mercado não espera.
A vida não espera.

No meu caso, vivi um ciclo que parecia não ter fim.
Em diversas perícias, eu era considerada apta pelo INSS e meu benefício era indeferido. O INSS determinava que eu voltasse ao trabalho.
Mas, quando eu retornava à empresa, a própria empresa entendia que eu ainda não tinha condições de trabalhar e não autorizava meu retorno às atividades.
Eu ficava presa entre duas decisões contraditórias.
De um lado, o INSS dizia que eu podia trabalhar.
Do outro, a empresa dizia que eu não podia.
E, no meio disso tudo, estava eu.
Sem salário.
Sem benefício.
Sem saber como pagaria minhas contas.
Sem saber o que fazer.
Esse ciclo me levou ao limite.

Houve dias em que pensei que estava enlouquecendo.
Porque, além do racismo, do assédio e do adoecimento, eu precisava lidar diariamente com a insegurança de não saber como sobreviver.
Foi justamente nesse momento que me senti mais vulnerável.
Muitas vezes pensei em voltar para um ambiente que já havia me feito tanto mal.
Não porque eu estava bem.
Mas porque eu precisava sobreviver.
Porque o medo de ficar sem dinheiro consegue, muitas vezes, falar mais alto do que a dor.
E foi exatamente isso que aconteceu comigo.
Sem o suporte financeiro que eu precisava, meu estado emocional piorou ainda mais.
Além do sofrimento, veio outro sentimento devastador: a culpa.
Eu sentia vergonha de precisar pedir ajuda ao meu companheiro.
Vergonha de depender financeiramente dele.
Vergonha de não conseguir contribuir com as despesas da casa.
Vergonha de não conseguir proporcionar tudo o que minha filha precisava.
E essa vergonha era cruel, porque eu sabia que não estava naquela situação por escolha.
Eu não escolhi adoecer.
Eu não escolhi viver tudo o que vivi.

Mesmo assim, cada conta que chegava, cada gasto inesperado e cada vez que eu precisava pedir ajuda faziam nascer dentro de mim um sentimento de culpa.
Era como se eu tivesse falhado.
Como se eu devesse me sentir culpada por não estar trabalhando.
Hoje eu sei que não deveria carregar esse peso.
Mas quem vive essa realidade sabe como é difícil não se culpar.
Foi nos meus piores dias que compreendi uma verdade que nunca tinha enxergado com tanta clareza: o suporte financeiro também salva vidas.
Porque quando tudo perde o sentido para você, a vida continua acontecendo.
As contas continuam chegando.
As responsabilidades continuam existindo.
E tudo parece fugir do seu controle.

Foi nesse momento que meu companheiro se tornou ainda mais presente.
Ele já era meu suporte emocional, mas percebeu que eu precisava de muito mais do que um abraço.
Sem hesitar, assumiu responsabilidades que não eram dele.
Ajudou financeiramente.
Cuidou de mim.
Segurou minha mão quando eu já não tinha forças para continuar.
E não era apenas por mim.
Eu também sou mãe.
Minha filha precisava de segurança, estabilidade e do básico enquanto eu lutava para recuperar minha saúde.
Nunca esquecerei isso.
Hoje compreendo que, sem esse suporte, talvez eu não tivesse conseguido continuar lutando pelos meus direitos.

Por isso, quando alguém me diz:
“Você foi muito corajosa.”
Minha resposta é sempre a mesma.
Você também é.
Toda mulher que suporta humilhações para colocar comida dentro de casa é corajosa.
Todo trabalhador que engole o choro para não perder o emprego é corajoso.
Toda vítima que pensa em denunciar, mas desiste por medo das consequências, também é corajosa.
O que muitas vezes nos falta não é coragem.
É a segurança de saber que teremos alguém para nos amparar quando tudo desmoronar.
Enquanto denunciar significar correr o risco de perder o sustento, adoecer sem assistência e enfrentar um sistema que, muitas vezes, deixa o trabalhador preso entre decisões contraditórias, muitas vítimas continuarão em silêncio.
Não porque lhes falta coragem.
Mas porque lhes falta suporte.
A coragem mora dentro de nós. O suporte é que ainda é um privilégio para poucos.

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*Instagram: https://www.instagram.com/c_caroline96

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