Especialistas apontam que evolução da assistência farmacêutica fortalece a atenção primária e aproxima cuidados básicos dos pacientes, sem substituir consultas médicas
As farmácias brasileiras vivem uma transformação silenciosa, mas de grande impacto para a saúde pública. Antes associadas quase exclusivamente à venda de medicamentos, elas passaram a desempenhar um papel cada vez mais relevante na assistência à população, oferecendo serviços farmacêuticos, vacinação, testes rápidos e acompanhamento clínico autorizado pela legislação. Para especialistas, essa mudança contribui para ampliar o acesso aos cuidados básicos de saúde e reduzir a pressão sobre unidades de pronto atendimento e serviços ambulatoriais, especialmente em situações que não exigem atendimento médico imediato.
O movimento acompanha mudanças importantes no perfil da população brasileira. O envelhecimento acelerado, o aumento da prevalência de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, e a necessidade de monitoramento contínuo de pacientes fizeram crescer a demanda por serviços de saúde de fácil acesso. Nesse contexto, as farmácias ganharam protagonismo por estarem presentes em praticamente todos os municípios brasileiros e oferecerem horários de funcionamento mais amplos do que muitos serviços públicos.
Segundo Amanda Glacy da Silva Boto de Almeida, farmacêutica, empresária e executiva com mais de 15 anos de experiência em gestão de operações farmacêuticas, o setor passou por uma mudança estrutural que vai além do varejo. “A farmácia se tornou um ponto de cuidado. O paciente procura o estabelecimento não apenas para comprar medicamentos, mas para esclarecer dúvidas, receber orientação sobre o tratamento, acompanhar indicadores básicos de saúde e, quando necessário, ser encaminhado para outros níveis de atendimento.”
Essa evolução foi acompanhada pela regulamentação profissional. O Conselho Federal de Farmácia estabelece normas para a prestação de serviços clínicos pelos farmacêuticos, enquanto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária regulamenta atividades como vacinação e requisitos sanitários para funcionamento desses serviços em farmácias e drogarias devidamente licenciadas.
Na prática, muitas unidades passaram a oferecer vacinação, testes rápidos, aplicação de medicamentos, aferição de pressão arterial, monitoramento de glicemia, revisão da farmacoterapia e acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, sempre dentro dos limites previstos pela legislação e sob responsabilidade técnica do farmacêutico.
Para Amanda, a expansão desses serviços representa um ganho para toda a rede de atenção à saúde.
“Quando o paciente consegue receber uma orientação qualificada logo no primeiro contato, evita-se o uso inadequado de medicamentos, melhora-se a adesão ao tratamento e, em muitos casos, evita-se que situações simples evoluam para quadros mais graves. Isso beneficia tanto a população quanto o sistema de saúde”, pontua.
Outro aspecto importante é a prevenção. Diversas campanhas nacionais de vacinação, conscientização sobre doenças crônicas, uso racional de medicamentos e combate à automedicação contam com a participação ativa das farmácias, ampliando o alcance das ações de educação em saúde.
Amanda ressalta que esse protagonismo exige investimentos permanentes em qualificação profissional. “O farmacêutico deixou de desempenhar apenas uma função operacional. Hoje ele precisa dominar protocolos clínicos, atualizar-se constantemente e trabalhar de forma integrada com os demais profissionais da saúde. A confiança da população depende diretamente dessa capacitação.”
A transformação também foi impulsionada pela tecnologia. Sistemas eletrônicos de gestão, integração de dados, controle automatizado de estoques e ferramentas de acompanhamento de pacientes permitem maior segurança nos processos e melhor organização das operações farmacêuticas.
Ao longo de sua trajetória, Amanda liderou a expansão de uma operação que evoluiu para uma rede de múltiplas farmácias, atuando diretamente na gestão operacional, conformidade regulatória, formação de equipes, controle de estoque e prestação de serviços farmacêuticos voltados às comunidades onde as unidades estão inseridas.
Na avaliação da executiva, a tendência é que o papel das farmácias continue crescendo nos próximos anos, impulsionado pela demanda por atendimento mais acessível e pela valorização da atenção primária. As farmácias têm capilaridade, estrutura e profissionais qualificados para contribuir cada vez mais com a prevenção, o acompanhamento de pacientes e a promoção da saúde, sempre atuando de forma complementar aos demais serviços do sistema de saúde.”
