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NR-1 pode transformar a cultura organizacional muito além do cumprimento da lei, defende especialista

Atualização da norma amplia o olhar das empresas sobre os riscos psicossociais e reforça a saúde mental como estratégia para fortalecer lideranças, equipes e resultados

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) representa um marco na forma como as empresas brasileiras passam a lidar com a saúde mental no ambiente de trabalho. Mais do que atender a uma exigência legal, a nova regra oferece às organizações a oportunidade de construir ambientes mais saudáveis, fortalecer lideranças, aumentar o engajamento das equipes e consolidar uma cultura organizacional mais sustentável.

Essa é a avaliação da psicóloga e especialista em bem-estar corporativo Bianca Sousa, que acredita que os maiores benefícios da norma serão percebidos pelas empresas que enxergarem essa atualização como uma estratégia de gestão, e não apenas como uma obrigação legal.

“A NR-1 não representa o ponto final, mas o início de uma transformação. As organizações que enxergarem essa atualização apenas como uma obrigação vão assumir um custo. Já aquelas que compreenderem seu potencial terão a oportunidade de formar lideranças mais preparadas, equipes comprometidas e uma cultura muito mais sólida”, afirma.

A atualização determina que fatores como assédio moral, excesso de demandas, metas inalcançáveis, falhas na comunicação, conflitos interpessoais e baixa autonomia passem a integrar oficialmente o gerenciamento dos riscos ocupacionais, ao lado dos riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes.

Na prática, questões que antes eram tratadas exclusivamente pelo setor de Recursos Humanos passam a fazer parte da estratégia do negócio, exigindo uma atuação integrada entre lideranças, gestão de pessoas e alta administração.

O cenário reforça essa necessidade. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos relacionados a transtornos mentais, o maior número da série histórica. No mesmo período, a Justiça do Trabalho recebeu 142.828 novos processos envolvendo assédio moral, evidenciando o impacto do adoecimento emocional sobre profissionais e organizações.

Segundo Bianca, a norma apenas torna obrigatória uma discussão que muitas empresas vinham adiando.

“O sofrimento emocional não começa quando um colaborador precisa se afastar. Ele surge na forma como as relações são construídas diariamente, na comunicação, no reconhecimento, na liderança e no cuidado com as pessoas. A NR-1 convida as empresas a olharem para essas questões de maneira estruturada e preventiva”, explica.

O mapeamento é apenas o começo

Embora muitas organizações já tenham iniciado o levantamento dos riscos psicossociais, Bianca ressalta que essa etapa representa apenas o início do processo.

Após a identificação dos fatores de risco, a NR-1 prevê a elaboração de um plano de ação com definição de prioridades, responsáveis, cronograma de execução e acompanhamento contínuo dos resultados.

Para a especialista, um dos investimentos mais importantes deve ser direcionado ao fortalecimento das lideranças.

“Os indicadores mostram os sintomas, mas raramente revelam a origem do problema. Quando aprofundamos a análise, encontramos gestores que nunca receberam preparo para conduzir pessoas, dificuldades na comunicação, ausência de espaços de escuta e culturas que atuam apenas quando o problema já aconteceu. É justamente nesse ponto que começa a verdadeira transformação”, destaca.

Ela também defende iniciativas permanentes voltadas ao fortalecimento da cultura organizacional, incluindo treinamentos, rodas de conversa, programas de desenvolvimento humano, políticas claras de conduta, incentivo à comunicação não violenta e ações contínuas de prevenção ao assédio.

Saúde mental também gera retorno para o negócio

Na experiência da especialista, empresas que tratam a saúde mental como investimento obtêm resultados que vão muito além da conformidade com a legislação.

Em um dos projetos conduzidos pela Lótus Desenvolvimento, uma organização buscava soluções para reduzir a alta rotatividade. O diagnóstico revelou que a principal causa estava na forma como as lideranças conduziam suas equipes e nas relações estabelecidas no ambiente de trabalho.

A estratégia priorizou o desenvolvimento dos gestores, a criação de espaços estruturados de escuta e ações voltadas ao fortalecimento da cultura organizacional.

Ao longo dos meses, a empresa registrou melhora significativa do clima interno, aumento do engajamento, maior satisfação das equipes, redução dos custos relacionados à rotatividade e, posteriormente, conquistou a certificação Great Place to Work (GPTW).

“Quando a saúde mental passa a fazer parte da estratégia da empresa, todos ganham. O acompanhamento dos indicadores, aliado ao desenvolvimento das lideranças e à construção de ambientes psicologicamente seguros, reduz riscos, evita passivos trabalhistas, fortalece a cultura organizacional e melhora os resultados do negócio. Esse é o verdadeiro potencial da NR-1”, conclui Bianca.

Arquivo pessoal

Sobre Bianca Sousa

Bianca Sousa é psicóloga, administradora e especialista em bem-estar corporativo. Fundadora da Lótus Desenvolvimento, acumula mais de 20 anos de experiência em Gestão de Pessoas, atuando como parceira estratégica de lideranças na construção de culturas organizacionais mais saudáveis, produtivas e alinhadas aos objetivos do negócio. Ao longo da carreira, conduziu projetos nos segmentos de entretenimento, coworking, facilities, laboratórios de análises clínicas, instituições de ensino, contabilidade e indústria, contribuindo para a redução da rotatividade, fortalecimento das lideranças, aumento do engajamento e melhoria dos indicadores de gestão de pessoas. Sua missão é ativar o potencial de profissionais, equipes e empresas por meio de iniciativas que promovam bem-estar, desempenho e mais significado para o trabalho.

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