O avanço dos smartphones e a conectividade móvel têm impulsionado novos hábitos culturais no país. Uma pesquisa da Nielsen BookData, multinacional especializada no mercado editorial, revela que o Brasil conta com cerca de 94 milhões de leitores digitais — pessoas que consumiram livros digitais, notícias, audiolivros, PDFs ou quadrinhos por meio de dispositivos eletrônicos nos últimos 12 meses.
O estudo “Perfil e Hábito do Leitor Digital Brasileiro” traça uma mudança estrutural no consumo de leitura: 64% desse público integra as classes C (46%), D e E (18%), e o telefone celular lidera com folga como a principal porta de entrada. Entre os leitores de livros eletrônicos e ouvintes de audiolivros, 72% utilizam o smartphone; para outros formatos textuais, o índice chega a 85%.
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A facilidade de acesso foi citada por 61% dos entrevistados como a razão central para a escolha do formato digital, seguida pela praticidade de transporte (48%) e pelo custo mais acessível em relação às edições impressas. Como resultado, 43% afirmaram que passaram a ler “muito mais” graças às opções digitais.
A rotina da técnica de enfermagem e cuidadora Maria das Neves de Araújo Alves, de 60 anos, reflete esse perfil. Com deslocamentos diários de três horas no transporte público, ela adotou o celular como biblioteca móvel para ler romances e narrativas de ação.
“Prefiro ler no telefone porque ele está sempre comigo e posso ler no ônibus, no posto de saúde, em quase todo lugar. O livro se torna mais difícil para mim, porque é mais um peso para eu carregar na bolsa, no ônibus. E eu teria que ou comprá-lo ou ir a uma biblioteca – e não há nenhuma perto de onde eu moro”, relata.
O presidente do Instituto para a Democratização da Leitura Digital, Rafael Lunes, avalia que o ambiente virtual tem compensado deficiências históricas de infraestrutura cultural, como a ausência de livrarias e bibliotecas ativas na maioria dos municípios.
“O cenário da leitura em um país continental como o Brasil apresenta um paradoxo: avançamos significativamente na alfabetização, mas temos ainda milhares de municípios sem uma única livraria ou biblioteca operacional. A tecnologia tornou-se o canal por onde a cultura e a educação finalmente romperam as barreiras da exclusão física”, afirma Lunes.
Para Rodrigo Meinberg, executivo-chefe da plataforma de leitura Skeelo, a conectividade permite expandir o alcance da produção editorial onde a distribuição tradicional não chega.
“Segundo o IBGE, em 2018, apenas 18% dos municípios brasileiros possuíam uma livraria. Já a rede móvel chega onde as livrarias não chegam. Ou seja, estamos diante de uma grande oportunidade. Hoje, o livro está presente nos celulares de quase todos os brasileiros”, conclui o executivo.
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