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O Protagonismo digital na era do caos humano: o que a 8ª Semana Fellipelli expôs sobre desenvolvimento humano na era da IA  

Arte da 8ª Semana Fellipelli de Neurociência e Inteligência Emocional, com o tema Protagonismo Digital na Era do Caos Humano, abordando desenvolvimento humano e inteligência artificial.

Entre neurociência, inteligência emocional e inteligência artificial, a 8ª Semana Fellipelli discutiu por que palestras e treinamentos isolados geram consciência, mas raramente mudam comportamento. 

Durante muito tempo, o desenvolvimento de pessoas nas empresas teve formato de evento: um treinamento de dois dias, uma palestra inspiradora na convenção anual, uma avaliação aplicada uma vez e arquivada em seguida. 

Esse modelo não desapareceu, nem perdeu totalmente sua utilidade. Mas ficou pequeno diante do que mudou ao redor dele. 

Durante o expediente, profissionais do conhecimento são interrompidos a cada dois minutos por uma reunião, um e-mail ou uma mensagem, segundo o Microsoft Work Trend Index 2025. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial passou a redigir, resumir, recomendar e, cada vez mais, aconselhar. 

A pergunta que se impõe é desconfortável: se o mundo muda continuamente, por que o desenvolvimento humano ainda é tratado como uma intervenção pontual? 

Essa tensão atravessou a 8ª Semana Fellipelli de Neurociência e Inteligência Emocional, realizada em outubro com o tema “O Protagonismo Digital na Era do Caos Humano”. O encontro presencial aconteceu em 20 de outubro, em São Paulo. Depois vieram duas transmissões online, com Carlos Piazza no dia 21 e Flavio Maneira no dia 22. 

Além das palestras citadas nesta matéria, a programação presencial teve a apresentação de Alessandra Oliveira, “O protagonismo emocional: Neurociência para Liderar na Era do Caos”. Houve também o painel “IA nas empresas: o RH está conduzindo ou correndo atrás?”, com Monica Matias, Patricia Torres e Alessandra Oliveira e mediação de Adriana Fellipelli. 

Os temas variaram de vieses de decisão a virtudes, de sabedoria prática a neuroplasticidade. Vistos em conjunto, porém, apontaram para a mesma conclusão: consciência se gera em uma tarde. Transformação, não. 

A tecnologia acelerou. O cérebro, não. 

A primeira provocação é de ritmo. 

Ferramentas são atualizadas em semanas, e modelos de IA ganham novas capacidades a cada ciclo. O cérebro humano continua operando com os mesmos mecanismos de atenção, memória e emoção — e aprendendo na mesma velocidade biológica de sempre. 

Na transmissão do dia 21, Carlos Piazza traçou uma fronteira clara entre as duas naturezas: “Inteligência artificial não tem intuição. Nossa natureza da inteligência humana é a emoção. Por favor, não confunda uma coisa com a outra.” 

A distinção não é retórica. No encontro presencial, o professor e conselheiro Edney “InterNey” Souza recorreu ao neurocientista António Damásio e a O Erro de Descartes para lembrar que a emoção sustenta a razão. Sem ela, não há decisão humana. A máquina, por contraste, se aproxima de um velho ideal: o raciocínio sem corpo. 

Edney resumiu o paradoxo em um dos slides mais diretos da Semana: “Passamos décadas treinando gente para agir como máquina. E agora precisamos voltar a ser humanos.” 

Pontualidade, padronização e execução sem desvio foram, durante muito tempo, o que escolas e empresas premiaram. Agora a máquina executa melhor. O que sobra — dúvida, julgamento, presença, leitura de contexto — é justamente o que passou décadas sem ser treinado. 

Se a IA aconselha, quem decide? 

Adriana Fellipelli abriu o dia presencial com a pergunta que deu nome à sua apresentação: “A IA pensa. Quem decide?” 

O ponto de partida foi o que ela chamou de armadilha da substituição cognitiva. Um dos slides a resume assim: “A confiança de quem aconselha vira, em silêncio, um substituto da qualidade do conselho.” 

Ou seja: quanto mais fluente e segura soa a resposta da máquina, menor a tendência de verificá-la. A apresentação reuniu pesquisas sobre viés de automação, apreço excessivo por algoritmos e bajulação — o comportamento de modelos que aprendem a concordar com o usuário em vez de buscar a resposta correta. 

Os números trazidos por Edney ajudam a dimensionar o risco. Em um working paper de 2026 da Wharton, com 1.372 participantes, a taxa de acerto em tarefas de julgamento foi de 46% sem IA. Com uma IA que acertava, subiu para 71%. Com uma IA que errava, caiu para 31%. 

A tecnologia amplia o acerto quando acerta. E amplia o erro quando erra — sobretudo quando ninguém confere. 

Há também um efeito mais lento. Um estudo observacional publicado em 2025 na Lancet Gastroenterology & Hepatology acompanhou médicos de quatro centros na Polônia. A taxa de detecção de adenomas em exames feitos sem IA caiu de 28,4% para 22,4% depois de cerca de três meses de uso de um sistema de apoio. Eram os mesmos profissionais. O estudo mostra associação, não causa, mas ninguém ali decidiu abrir mão daquela habilidade. 

Para Adriana, a resposta não está em rejeitar a ferramenta, e sim em reorganizar a relação com ela. “Aconselhar bem é devolver perguntas, não entregar decisões”, diz sua apresentação. 

Ela propôs um protocolo de quatro checagens, a Bússola A.F.C.C.: 

  • Antes: escrever a própria hipótese antes de consultar a máquina. 
  • Conta: perguntar quem paga a conta se a estratégia fracassar. 
  • Fonte: pedir à IA contra-argumentos e cenários de falha, não decisões. 
  • Corpo: checar se cabeça, coração e instinto concordam. 

A segunda pergunta talvez seja a mais importante. A IA pode recomendar. A responsabilidade pela consequência continua tendo nome e sobrenome. 

Edney chegou ao mesmo lugar por outro caminho: Aristóteles. Conhecimento (episteme) e técnica (techne), a IA entrega em escala. Já a phronesis — a sabedoria prática de julgar o que fazer nesta situação, com estas pessoas — “só se forma vivendo o caso”. O título do bloco era direto: “Não existe download de sabedoria”. 

Um evento só não muda ninguém 

Se julgamento, emoção e sabedoria prática se tornam o diferencial humano, a pergunta seguinte é inevitável: como se desenvolve isso? 

A resposta mais incômoda da Semana veio da neurociência. 

Na palestra “O Cérebro Antifrágil”, Eduardo Casarotto — pesquisador, professor e fundamentador da escola clínico-filosófica Virtologia — lembrou que aprender é, literalmente, mudar o cérebro: molécula, neurônio, sinapse. A memória de curto prazo se dissipa. A de longo prazo, a partir dos trabalhos de Kandel que ele citou, exige genes, proteínas e sinapses novas. 

A conclusão estava escrita no slide: “Um evento só não muda ninguém: nem a palestra, nem o dia de descompressão.” 

É uma frase que deveria incomodar qualquer área de desenvolvimento — inclusive quem organiza encontros como a própria Semana. Justamente por isso, merece atenção. 

Casarotto acrescentou uma condição que vem antes do treino: o ambiente. Quando necessidades básicas como sono, segurança e reconhecimento estão em carência, o alarme do corpo tira do comando o córtex pré-frontal, do qual o aprendizado depende. “Ninguém aprende com o tanque vazio”, dizia a apresentação. 

Ele também ligou o tema à nova NR-1. Em sua leitura, questionário, palestra e programa de bem-estar não tiram o risco psicossocial da fonte, porque o risco nasce da regra mal escrita, do cargo mal desenhado e da liderança sem preparo. 

No dia 22, Flavio Maneira levou a mesma lógica para o campo do comportamento: “Todo mundo quer ser bom, mas poucos estão dispostos aos sacrifícios necessários para serem excelentes. Consistência sempre vai ganhar de intensidade.” 

A frase organiza boa parte do que a Semana discutiu. Intensidade é o workshop imersivo, o discurso que emociona, o dia em que todos saem motivados. Consistência é o que acontece na segunda-feira seguinte — e na outra. 

Se competências são treináveis e o cérebro muda por repetição, prática e ambiente, o desenvolvimento humano precisa ser tratado como processo, e não como evento. 

Consistência tem método 

O raciocínio vale nos dois sentidos. Se uma intervenção isolada não basta, a prática sustentada funciona. 

Edney apresentou um estudo publicado em 2026 no Journal of Experimental Psychology: Applied, com 397 universitários: o efeito de um curso de pensamento crítico ainda aparecia 16 meses depois. O slide resumia em três palavras: “Critério se treina”. 

Casarotto descreveu um formato concreto de continuidade: ciclos de 14 dias para cada virtude. O ciclo tem estudo pela manhã, aplicação em situações reais durante o dia, registro de erros e acertos à noite e uma conversa semanal com outra pessoa. Depois vêm revisões aos 7, 30, 90 e 180 dias. 

O detalhe importa menos do que a lógica. Atenção, repetição, espaçamento e retorno sobre o erro são condições que um evento, por melhor que seja, não oferece sozinho. 

Na empresa, a consequência aparece na própria apresentação: a estrutura de treinamento deve se organizar em “ciclos de virtudes que o cargo exige, não palestra solta”. 

Medir para não virar opinião 

Continuidade sem medida, porém, corre outro risco: virar convicção. 

Desenvolvimento humano costuma ser avaliado por percepção. O gestor acha que a equipe melhorou, o participante sente que aprendeu, o RH registra a nota de satisfação do treinamento. 

Só que percepção é um instrumento pouco confiável. Edney citou pesquisa de Tasha Eurich publicada na Harvard Business Review em 2018: apenas 10% a 15% das pessoas preenchem os critérios de autoconsciência, embora 95% acreditem preenchê-los. 

Casarotto descreveu o mesmo problema dentro das organizações. “Sem medida, a terceira competência vira opinião: quem o gestor gosta é ‘humilde’; quem ele não gosta é ‘arrogante'”, dizia seu slide. 

A proposta foi um ciclo simples na forma e exigente na prática: medir, desenvolver, medir de novo. Ou, como estava escrito em outro slide, “o que não se mede não se desenvolve”. 

Edney trouxe uma versão do mesmo princípio para o uso de IA no trabalho: pedir às equipes o rastro de decisão, isto é, o porquê de cada resposta aceita e de cada edição feita. Na avaliação, a recomendação é olhar o raciocínio, não apenas a entrega. 

Diagnóstico, desenvolvimento, acompanhamento e nova medição deixam de ser etapas isoladas e passam a formar um ciclo. 

Virtudes: medir o que continua humano 

É nesse ponto que a Semana saiu do campo conceitual. 

Casarotto organiza as competências em três camadas: a técnica (o que a pessoa sabe fazer), a comportamental (como ela age) e a que chama de moral-virtuosa (de que lugar moral ela faz). Para ele, inveja, panelinha, mentira e corrupção não são falta de técnica. São falta da terceira competência. 

Segundo sua apresentação, exigir comportamento sem desenvolver a base que o sustenta produz persona: alguém que aprende a parecer resiliente, colaborativo ou líder sem que isso corresponda a quem é. “A distância entre a persona e o self é o tamanho do transtorno”, afirmava o slide. 

É dessa visão que nasce o Virtudes, lançamento da Fellipelli construído a partir dos estudos de Casarotto. A proposta é tornar mensurável a terceira competência: identificar quais virtudes cada pessoa já construiu e quais ainda faltam, para que o desenvolvimento tenha, nas palavras da apresentação, “endereço certo”. 

Mas uma ferramenta, sozinha, não resolve o que a própria Semana diagnosticou. Um assessment não substitui um ambiente humanizado. Uma medição não muda ninguém sem prática entre uma avaliação e outra. O próprio Casarotto colocou a humanização do sistema — governança, regras, desenho de cargos — como etapa anterior ao treino. 

O valor de iniciativas como essa está menos na ferramenta e mais no que ela permite: transformar desenvolvimento humano em processo acompanhável, e não em impressão. 

A mesma lógica orienta o Xpand Hub, ecossistema que a Fellipelli está desenvolvendo para integrar o desenvolvimento das pessoas e dar continuidade a ele. A plataforma ainda não foi lançada, mas a direção é coerente com o que a Semana discutiu: sair de iniciativas fragmentadas — um curso aqui, uma avaliação ali — para jornadas conectadas, com a tecnologia como meio, e não como fim. 

A pergunta mudou 

Eventos como a Semana Neuro têm uma função legítima: abrir conversas, apresentar repertório, provocar desconforto. Mas carregam também um risco: o de serem confundidos com o próprio desenvolvimento. 

Os palestrantes pareciam conscientes disso. Vários encerraram suas apresentações não com uma conclusão, mas com uma tarefa. 

Adriana deixou um protocolo para a próxima decisão. Edney pediu ao público que escolhesse “uma coisa que você vai continuar fazendo sem IA. De propósito”. Casarotto terminou com uma pergunta dirigida a quem lidera: “O que você vai recompensar, a partir de amanhã?” 

Durante anos, muitas organizações perguntaram: “Qual treinamento devemos oferecer?” 

A pergunta continua válida. Mas agora precisa vir acompanhada de outra, potencialmente mais incômoda: 

“O que vai sustentar esse desenvolvimento quando o treinamento terminar?.”

Quanto mais a tecnologia amplia sua capacidade de execução, mais importante se torna desenvolver aquilo que permanece profundamente humano: julgamento, inteligência emocional, pensamento crítico, capacidade de decidir e de responder pela decisão. 

Nada disso cabe em uma palestra de duas horas. 

“Cérebro antifrágil não é o que aguenta mais. É o que tem estrutura”, resumia o slide final de Casarotto. 

E estrutura, como a Semana mostrou, se constrói com continuidade. 


Saiba mais 

A Fellipelli mantém uma agenda de formações voltadas a liderança, inteligência emocional, diagnóstico comportamental, relações interpessoais e gestão de conflitos. O Xpand Hub será apresentado em breve. 

Acesse: https://conteudos.fellipelli.com.br/evoluir-fellipelli 


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