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SER APAIXONADO FAZ MUITO BEM

Arquivo pessoal

Por Bayard Do Coutto Boiteux

Ser apaixonado é uma das formas mais bonitas de estar vivo. É permitir que o coração tenha voz, que os sentimentos ultrapassem as convenções e que a existência deixe de ser apenas uma sucessão de dias para se transformar numa extraordinária aventura de emoções. Tenho uma profunda admiração pelas pessoas apaixonadas. Aquelas que ainda se encantam com um olhar, se emocionam com uma música, se entregam a um abraço e conseguem descobrir poesia nas pequenas coisas. São pessoas que não desistiram de sentir, mesmo depois de conhecerem as dores, as perdas e as inevitáveis decepções que a vida nos reserva.

Sempre acreditei que a paixão é uma força capaz de nos reinventar. Não falo apenas da paixão amorosa, embora ela seja uma das experiências mais intensas e fascinantes que podemos viver. Falo também da paixão pela liberdade, pela amizade, pela arte, pelas viagens, pelos livros, pela justiça, pelas causas que abraçamos e pelas pessoas que escolhemos para caminhar ao nosso lado. Apaixonar-se é reconhecer que existe algo ou alguém capaz de despertar em nós uma vontade quase infantil de descobrir, compartilhar, proteger e sonhar.

Gosto dos apaixonados que não escondem suas emoções. Dos que dizem que amam sem consultar o relógio, que escrevem mensagens inesperadas, que oferecem flores sem esperar datas comemorativas, que atravessam distâncias para encontrar alguém especial. Gosto daqueles que ainda sentem um frio na barriga diante de um encontro, que guardam lembranças de um beijo, que reconhecem um perfume no meio da multidão e que sabem que determinados silêncios dizem muito mais do que longos discursos. Existe uma beleza imensa na coragem de demonstrar afeto num mundo que tantas vezes confunde sensibilidade com fraqueza.

A paixão também nos torna mais generosos. Quando estamos verdadeiramente apaixonados pela vida, aprendemos a olhar o outro com mais delicadeza. Percebemos as fragilidades humanas, compreendemos melhor as diferenças e descobrimos que ninguém precisa ser perfeito para merecer amor. A paixão não deveria aprisionar, controlar ou exigir renúncias à própria identidade. O sentimento mais bonito é aquele que nos permite continuar sendo quem somos, acrescentando à nossa existência a alegria de compartilhar caminhos. Amar não é possuir. É admirar a liberdade do outro e desejar fazer parte dela.

Arquivo pessoal

Ao longo da minha vida, conheci diferentes geografias do amor. Vi paixões nascerem em cidades desconhecidas, amizades se transformarem em afetos profundos e encontros aparentemente passageiros deixarem marcas que resistiram ao tempo. Aprendi que o coração não respeita fronteiras, idiomas ou nacionalidades. Uma palavra em francês, um sorriso numa rua de Lisboa, uma música escutada em Paris, um pôr do sol diante do mar do Rio de Janeiro podem despertar sentimentos que julgávamos adormecidos. Viajar me ensinou que o mundo é imenso, enquanto a linguagem da emoção consegue aproximar pessoas de universos completamente diferentes.

Também conheci as dores da paixão. As despedidas que chegam antes da hora, os sentimentos que não encontram reciprocidade, as promessas que o tempo transforma em lembranças. Nem toda paixão se converte em história duradoura. Algumas passam por nossas vidas como tempestades de verão, intensas, luminosas e breves. Outras permanecem discretamente guardadas num lugar especial da memória. Não considero essas experiências derrotas. Prefiro acreditar que cada encontro verdadeiro nos acrescenta alguma coisa, mesmo quando termina. O coração que se permitiu amar nunca volta a ser exatamente o mesmo.

Há quem defenda que, com o passar dos anos, devemos nos tornar mais prudentes, menos sonhadores, mais econômicos nos sentimentos. Discordo profundamente. A maturidade deveria nos ensinar a amar melhor, nunca a amar menos. Não existe idade para o encantamento, para a ternura, para o desejo de estar junto, para a emoção de uma descoberta. O calendário pode registrar os anos vividos, jamais determinar a intensidade com que devemos viver os que ainda nos esperam. Envelhecer sem perder a capacidade de se apaixonar é uma extraordinária vitória sobre a indiferença.

Sou apaixonado pela vida, apesar de suas contradições. Apaixonado pelas pessoas que lutam por um mundo mais justo, pelos professores que transformam destinos, pelos artistas que desafiam a mediocridade, pelos amigos que permanecem quando as luzes se apagam. Apaixonado pela diversidade humana, pela democracia, pela liberdade de pensar e pela possibilidade de construir pontes onde tantos insistem em erguer muros. Existe paixão também na indignação diante das injustiças. Quem ama verdadeiramente a humanidade não consegue permanecer indiferente ao sofrimento alheio.

Acredito ainda na paixão pelos gestos simples. Preparar um café para alguém querido, segurar uma mão num momento difícil, ouvir com atenção uma história repetida, oferecer um abraço sem explicações. O amor não precisa estar permanentemente vestido de grandes acontecimentos. Muitas vezes, sua expressão mais profunda mora na delicadeza cotidiana, na presença silenciosa, no cuidado que não exige aplausos. A poesia da vida está frequentemente escondida naquilo que a pressa nos impede de perceber.

Quero continuar me apaixonando. Por ideias, por pessoas, por paisagens, por projetos aparentemente impossíveis. Quero preservar a capacidade de me emocionar diante de uma canção antiga, de uma carta inesperada, de um reencontro depois de muitos anos. Quero continuar acreditando que existem afetos capazes de atravessar oceanos, amizades que resistem às ausências e amores que florescem quando já não esperávamos encontrar novas primaveras.

Ser apaixonado faz muito bem porque nos devolve a coragem de sentir. Faz bem à alma, ilumina os pensamentos, alimenta a esperança e nos recorda que viver não é apenas respirar, trabalhar, cumprir compromissos e acumular experiências. Viver é também permitir que alguma coisa nos comova profundamente, que alguém nos faça sorrir sem motivo aparente, que um sonho nos tire o sono e que a felicidade encontre espaço mesmo entre as dificuldades.

Não quero uma vida protegida de todas as emoções. Quero uma vida atravessada por sentimentos verdadeiros. Prefiro as cicatrizes de quem amou às certezas de quem nunca ousou se entregar. Prefiro a intensidade de um coração generoso à tranquilidade vazia da indiferença. Prefiro continuar acreditando na beleza dos encontros, na magia dos afetos e na possibilidade permanente de recomeçar.

E, quando me perguntarem qual é o segredo para conservar a juventude da alma, responderei sem hesitar: continuar apaixonado. Pela vida, pela liberdade, pelas pessoas e pelo amor. Sobretudo pelo amor, essa extraordinária força que não se compra, não se impõe e não se explica inteiramente.

Arquivo pessoal

Bayard Do Coutto Boiteux

Afinal, quem conserva a capacidade de se apaixonar pode até envelhecer no corpo, jamais permitirá que a alma deixe de florescer.

Bayard Do Coutto Boiteux é professor universitário ,escritor ,autor de 55 livros e apaixonado por escrever 

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