SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Inundações catastróficas na região do Himalaia entre o Nepal e o Tibete mataram ao menos 160 pessoas nesta quarta-feira (26), segundo autoridades locais. Quase 500 pessoas estão desaparecidas. Casas e estradas foram destruídas, pontes foram arrastadas pela correnteza e vilarejos inteiros ficaram submersos em lama.
A causa da enchente ainda não foi esclarecida, e a dimensão do desastre ainda é incerta. Uma hipótese sugere que um terremoto teria atingido a região e provocado uma avalanche de gelo e rochas, causando as inundações. Outra afirma que, como consequência da crise do clima, um enorme bloco de gelo se desprendeu de uma geleira, resultado em avalanche e inundação.
No lado chinês da fronteira, um deslizamento de terra atingiu o porto de Gyirong, causando pânico e destruição. Ao menos três pessoas morreram e outras 265 estão desaparecidas após um deslizamento de terra, informou a emissora estatal CCTV, citando uma contagem preliminar das autoridades.
O número exato de vítimas ainda está sendo verificado, segundo a CCTV. Esses são os primeiros números de vítimas e desaparecidos divulgados referentes ao lado chinês da fronteira, e não está claro se há sobreposição com os números fornecidos pelo governo nepalês.
O gabinete primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, ao menos 484 pessoas estão desaparecidas, dos quais 341 estrangeiros. O grupo inclui 105 indianos, 12 britânicos e três americanos, além de cidadãos da Austrália, Holanda, Malásia e África do Sul. Não havia confirmação de vítimas brasileiras até a última atualização deste texto, segundo o Itamaraty.
A região fica em uma rota bastante utilizada para chegar a Kailash Manasarovar, no Tibete, local visitado anualmente por centenas de peregrinos hindus e de outros países, especialmente nesta época do ano.
O premiê afirmou que equipes da polícia e do Exército se uniram aos esforços de resgate. O governo afirmou que pediu ajuda aos seus vizinhos China e Índia, para reforçar as operações.
No distrito montanhoso de Rasuwagadhi, no norte do Nepal, o transbordamento do rio Bhote Koshi impediu que helicópteros de resgate pousassem nas áreas mais atingidas de Syapru Besi e Timure. O Exército informou que as aeronaves só poderão operar no local quando o nível da água baixar.
Imagens exibidas pela televisão mostram casas destruídas, veículos sendo levados pela correnteza e uma ponte metálica sendo arrastada pela água. Testemunhas disseram à Reuters que a água das enchentes engoliu vilarejos inteiros.
“Há devastação para onde quer que a gente olhe”, disse Tula Bahadur BK, agente de saúde em Rasuwagadhi. O administrador distrital (equivalente a prefeito), Narendra Pariyar, pediu que moradores que vivem às margens do Bhote Koshi deixassem as áreas mais baixas e procurassem locais elevados.
As autoridades também alertaram para a possibilidade de uma nova inundação. Um bloqueio ainda permanece em um trecho do rio Lhende Khola, represando parte do curso d’água e aumentando o risco de uma nova onda de enchentes.
No Tibete, autoridades disseram temer “grandes perdas humanas”, depois que um deslizamento de terra atingiu o porto de Gyirong, na fronteira entre os dois países. Imagens de câmeras de segurança mostram pessoas correndo segundos antes de a massa de terra atingir o local, soterrar veículos e destruir parte da estrutura.
O deslizamento bloqueou estradas e interrompeu o fornecimento de energia na região. O porto está às margens do rio Kyirong Tsangpo, a cerca de 1.850 metros de altitude, no fundo de um desfiladeiro do Himalaia.
O Centro Alemão de Pesquisa em Geociências informou que um terremoto de magnitude 4,4 ocorreu cerca de sete minutos antes do horário registrado nas imagens de segurança da chegada da avalanche no porto. Ainda não está claro, porém, se o tremor provocou o deslizamento.
Uma análise inicial de imagens de satélite da Planet Labs indicou que um deslizamento de neve e rochas atingiu o rio Lhende Khola, cerca de 20 km a nordeste da passagem de fronteira de Rasuwagadhi.
A enorme quantidade de água barrenta que desceu das montanhas também levou à emissão de alertas de inundação nos estados indianos de Bihar e Uttar Pradesh, que fazem fronteira com o Nepal. Diversos rios que nascem no Himalaia atravessam essas áreas em direção às planícies indianas.
O dirigente da China, Xi Jinping, pediu esforços totais nas buscas pelos desaparecidos, além do reforço dos sistemas de monitoramento e alerta antecipado para evitar novos desastres.
O Tibete é uma região étnico-cultural que se desenvolveu de forma distinta da China e cuja relação com Pequim é alvo de disputa histórica. Governado por diferentes dinastias chinesas, tornou-se vassalo da China no século 18, mas deixou de ser controlado na prática por Pequim após a queda da dinastia Qing, em 1912.
Em 1951, o Partido Comunista Chinês incorporou a região à China, alegando, entre outras razões, a existência de uma estrutura feudal com servidão camponesa. O dalai lama Tenzin Gyatso fugiu para a Índia e passou a defender maior autonomia para o Tibete. Desde então, Pequim promove políticas de assimilação cultural e reprime movimentos religiosos e políticos tibetanos. O regime chinês, que chama a região de Xizang, rejeita acusações de “genocídio cultural” e considera a questão altamente sensível.
